Por Humberto Lúcio Lima — MBA em Meio Ambiente e Sustentabilidade

O fogo no Cerrado não cabe em uma explicação simples. Em determinadas formações e sob regimes específicos, ele faz parte da história ecológica do bioma. Quando ocorre de maneira frequente, extensa, intensa ou fora de época, porém, pode matar animais, degradar o solo, atingir comunidades e comprometer a recuperação da vegetação.

Entender essa diferença é essencial para não confundir três situações distintas: o fogo ecológico, a queima controlada ou prescrita e o incêndio florestal.

O Cerrado é adaptado ao fogo?

Parte da vegetação do Cerrado apresenta adaptações associadas a uma longa convivência com o fogo, como cascas espessas, gemas protegidas e estruturas subterrâneas capazes de armazenar reservas e favorecer a rebrota. Algumas respostas reprodutivas também podem ser estimuladas por calor, fumaça ou pela abertura temporária da vegetação.

Isso não significa que qualquer incêndio seja natural ou benéfico. O resultado depende da formação vegetal atingida, da estação do ano, da frequência, da intensidade, da área queimada e do tempo disponível para recuperação.

Matas ciliares, matas de galeria e outros ambientes sensíveis podem sofrer danos severos. Mesmo em áreas campestres e savânicas adaptadas, intervalos inadequados entre incêndios reduzem a capacidade de regeneração.

Fogo ecológico, queima prescrita e incêndio não são a mesma coisa

Fogo ecológico

É a ocorrência inserida na dinâmica de ecossistemas associados ao fogo. Seus efeitos variam conforme o regime e o ambiente.

Queima controlada ou prescrita

É uma intervenção planejada, autorizada quando exigido e executada por pessoas capacitadas, com objetivos definidos, condições meteorológicas adequadas, aceiros, equipe e monitoramento. Não deve ser improvisada.

Incêndio florestal

É o fogo não controlado que se propaga sobre vegetação. Pode começar por negligência, ação criminosa, acidentes ou eventos naturais, e seus impactos aumentam em períodos de seca, calor, vento e acúmulo de material combustível.

Por que os incêndios atuais preocupam?

Mudanças no uso da terra, gramíneas invasoras, fragmentação, alterações climáticas e ignições humanas podem modificar o regime do fogo. Em 2024, o MapBiomas registrou 9,7 milhões de hectares queimados no Cerrado, dos quais 85% estavam em vegetação nativa. O dado ajuda a dimensionar o risco, mas não transforma toda área queimada em desmatamento nem permite concluir, sozinho, a causa de cada ocorrência.

Os efeitos incluem perda de habitat, mortalidade da fauna, fumaça prejudicial à saúde, emissão de gases de efeito estufa, erosão, danos a redes elétricas, estradas, propriedades e atividades econômicas.

O que mudou na política brasileira sobre fogo?

A Lei nº 14.944/2024 instituiu a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. A norma reconhece o papel ecológico do fogo em determinados ecossistemas, valoriza conhecimentos tradicionais e organiza prevenção, uso controlado, queima prescrita e combate a incêndios.

O ponto central é o planejamento. Uso do fogo não é sinônimo de autorização automática. Regras do órgão ambiental, restrições locais, qualificação da equipe e condições de segurança precisam ser respeitadas.

Como reduzir os riscos

  • Não iniciar queimadas sem orientação e autorização aplicável.
  • Manter planos de prevenção, rotas de acesso e comunicação de emergência.
  • Controlar gramíneas exóticas invasoras e material combustível conforme orientação técnica.
  • Proteger nascentes, matas de galeria e áreas sensíveis.
  • Apoiar brigadas, monitoramento e educação ambiental.
  • Comunicar rapidamente focos de incêndio às autoridades competentes.

Perguntas frequentes

Todo fogo é ruim para o Cerrado?

Não. O fogo pode integrar a dinâmica de algumas formações, mas incêndios recorrentes, intensos ou fora do regime adequado causam danos graves.

Posso fazer uma queima por conta própria?

Não se deve improvisar. Consulte o órgão ambiental responsável, verifique a necessidade de autorização e conte com equipe capacitada.

Queima prescrita é o mesmo que incêndio?

Não. A queima prescrita possui objetivo, planejamento, limites, condições operacionais e monitoramento. O incêndio é fogo sem controle.

Conhecimento que protege o território

Prevenir incêndios e manejar o fogo com responsabilidade exige ciência, saberes locais, políticas públicas e cooperação. Conheça os projetos do Instituto Arvoredo e fortaleça ações de educação e conservação do Cerrado.

Sobre o autor: Humberto Lúcio Lima é MBA em Meio Ambiente e Sustentabilidade e escreve sobre Cerrado, biodiversidade, água, restauração ecológica e educação ambiental.

Fontes: Lei nº 14.944/2024 — Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo; INPE — Programa Queimadas; MMA — PPCerrado, 4ª fase; MapBiomas — Relatório Anual de 2024.